A lenda do automóvel antigo

Lá estava ele, em toda a sua glória. Um Chevrolet conversível, 56, tipo Belair, marrom e beije, em perfeito estado de conservação.

Pela vigésima vez ele tentou a compra daquele carro, apesar da habitual recusa do atual dono, seu conhecido de tantos anos. O carro tinha pertencido a Christof Becker, um colecionador que havia voltado para a Alemanha o ano anterior, e nunca mais dera noticias. Desde então, apesar de insistentes propostas, o dono daquela oficina especializada, não estava disposto a vender o carro, pelo preço que fosse.

A oferta já estava em torno de 30.000 dólares e mesmo assim, continuava aquela indecisão que parecia nunca acabar. Finalmente chegaram a um denominador comum; ele ficaria com o carro por uma semana e deixaria o seu em troca como parte do pagamento, depois desse prazo acertaria o restante. Ele nem acreditou quando se viu de posse das chaves.Testou os freios, o câmbio; perfeito. O estofamento, impecável, como se tivesse saído da fábrica. Foi dirigindo até em casa, pensando na responsabilidade que era ter um carro daqueles nas mãos.Estacionou dentro da garagem com o maior cuidado, saiu, deu mais uma olhada pra ele e se certificou que tinha feito um ótimo negócio.

Entrou pela sala adentro com muita fome e cansaço, causados provavelmente pela ansiedade dos últimos acontecimentos. Olhou a sua volta e observou mais uma vez os seus móveis antigos, o papel de parede já amarelado pelo tempo e alguns objetos que havia adquirido aqui e ali. Sempre e em todo canto, se revelavam toques de um passado que ele nunca conheceu. Ou teria conhecido? Talvez ele próprio fosse um romântico incurável, pensou, apesar de ser um eterno solitário. Quem sabe fosse amor, o que sentira por cada mulher que havia passado em sua vida. O fato, é que nunca tinha se deixado prender mais do que alguns poucos meses e de repente, a paixão se evaporava como um perfume num frasco aberto, e lá ia ele de novo, em busca de alguma coisa especial que nunca aparecia.

Depois do jantar, escolheu um livro e se recostou na sua poltrona preferida. As frases começaram a dançar, diante dos seus olhos pesados demais para continuar a leitura. Resolveu se deitar. As imagens misturavam-se aos fatos, passados, presentes, vividos ou não, rostos sem fim, e no meio de tudo isso; o Belair, 56.

Ele podia sentir o ar puro das montanhas, o vento frio arrepiando sua pele e por trás das montanhas, o sol se pondo em seu vermelho amarelado, caindo, caindo, compondo um cenário luminoso onde se destacava, o automóvel debaixo da sombra de duas arvores. Ele abriu a porta, entrou, deu a partida e se contagiou de plenitude, pelas alamedas cheias de flores. Havia uma curva, no final daquela estrada. Olhou com atenção e viu mais alguma coisa; uma mulher. Seus cabelos dourados lhe caíam pelos ombros envoltos, levemente pelo vento e seu vestido de um azul pálido, que mais tarde reparou, combinavam com seus olhos. Num impulso, ele parou o carro

– Pensei que você não viesse mais, disse ela sorrindo, mas valeu a pena esperar.

– Olha, respondeu ele maravilhado e confuso, eu sinto muito desapontar você, mas infelizmente, não acredito que a gente tenha se visto antes.

Ela imediatamente abriu a porta do carro, se acomodou no banco do lado e ensaiou chorar.

– Mas você prometeu que não iria esquecer do que combinamos… Você prometeu…

– O que foi que combinamos? O que foi que eu prometi?

Ela olhou pra ele num misto de emoção e surpresa e foi aí que ele se deixou invadir.

– Vamos fazer um acordo? Vamos começar tudo de novo? Você me diz o seu nome, eu digo o meu, e…

– E por que precisamos de nomes?

– Como você quiser, respondeu tentando colocar o carro em movimento. Não conseguiu. Tentou de novo e nada. Quando insistiu pela terceira vez, tudo o que conseguiu, foi despertar de repente, com o rosto da desconhecida ainda vivo em sua mente. Olhou para o rádio relógio e viu que passava das sete. Será que tinha sonhado com isso a noite toda? .

Depois do banho e café, saiu apressado e quando desceu até a garagem, não acreditou. O carro não estava lá. Impossível, concluiu. O muro que ladeava o portão era muito alto, o portão estava trancado e a porta que dava para a garagem também. Não sabia o que pensar. Saiu até a rua. Ele estava lá. Em frente a sua casa. Mas como? Lembrava perfeitamente de ter deixado seu carro dentro da garagem. Ou será que não? Não queria pensar mais nisso. Passou o dia esquecido do sonho, do susto, só não conseguindo esquecer o rosto daquela desconhecida.

Quase anoitecia quando ele voltou para casa. Olhou para o carro dentro da garagem, só para se convencer de que ele estava lá, mesmo. Trancou o portão com cuidado e entrou em casa. Quase não jantou, inquieto que estava e sem sono. De vez em quando, ia até a garagem para ver se o carro continuava lá. Estava, voltava, tentava dormir, inútil. O rosto daquela mulher continuava nítido em sua lembrança. Procurou relaxar.

De repente, uma musica vinda de longe, chamou sua atenção. De onde vinha? Abriu as janelas, vagou pela casa, foi até a garagem e o som ficou mais forte. O rádio do carro. Não se lembrava de ter deixado ligado. Abriu a porta e ia desligar, quando viu alguém no portão. Era ela. No mesmo vestido azul, com um lenço de seda branco envolvendo os seus ombros. Não pensou duas vezes, abriu o portão e se abraçaram num gesto de saudade. Dessa vez foi ele quem falou;

– Pensei que não viesse mais.

Ela sorriu e eles se beijaram demoradamente.

– Não sei quem é você, disse ele. E também não me importo mais com isso. Só sei que preciso de você apesar de nem mesmo saber se isso tudo é real ou mera fantasia.

– Mas as fantasias podem ser reais, se você quiser que sejam, respondeu ela. Qual a diferença entre o sonho e a realidade, quando você vive intensamente os dois? O sonho é a própria vida, talvez bem mais real do que a realidade, quando é profundamente vivido.

– Mas os sonhos terminam.

– E a realidade? Por acaso é eterna?

Ele só se lembrou de leva-la pra casa, como a loucura mais real que já tivesse vivido. Não era o momento para questionar, já que a razão sempre tinha sido inimiga dos sentimentos.

– Preciso ir embora, disse ela. O dia está amanhecendo.

– Eu não vou mais deixar você ir, respondeu ele entre um gole e outro de champagne.

– Então, venha comigo, sorriu ela, me leva!

Ele pegou a garrafa de champagne na mão, as taças na outra e a seguiu até a garagem. Entraram no Belair.

– Mas pra onde eu devo levar você?

– Você deve saber, sorriu ela.

– Eu só quero ficar com você, não importa aonde.

Ela sorriu de novo e o abraçou ternamente, profundamente, e a última coisa que ele ouviu, foi a taça de cristal espatifando-se no chão…

Algumas horas depois, ele foi encontrado, dentro do automóvel, sem vida, com um sorriso nos lábios. No chão, acharam vestígios de champagne, duas taças de cristal quebradas e no banco traseiro jogado, um lenço de seda branco.

Um mês depois, na mesma oficina, havia um anuncio de venda a quem interessar fosse:

“ Chevrolet Belair, conversível, ano 56, em perfeito estado de conservação, raridade.”

Conto enviado pela compositora Isolda

www.isolda.mus.br

Se você quer ver seu conto publicado aqui entre em contato conosco

4 Comentários

  1. stephania
    maio 1, 2006

    Adorei esse conto gostari muito de receber todos os que puderem enviar para mim pois me intereso muito por isso..bjs espero que vcs respondam ao meu e-mail.
    obrigado..bye.
    Tefita

    Responder
  2. MARCELO NAVES BRUNO
    julho 11, 2006

    Este conto é demais. Mas, explique-me. qual o fundo de verdade que lhe inspirou? Existiu a Belair? E, a preferencia do cidadão, realmente era o veículo em 1º lugar? Esta “história” ou “estória” se passou com voce? Voce entende de “BELAIR”? Vamos discutir o assunto?

    Responder
  3. Vergilane Jacob
    março 5, 2007

    Gostei,muito interessante e profundo.Me tocou muito esse conto até parece com minha vida.Pelo menos ele encontrou o amor e a companheira da vida dele. O amor eterno. Muito bonito. Será que todos os solitários vão encontrar o seu amor eterno um dia?.

    Responder
  4. gilinho2012
    maio 10, 2009

    Interessante…

    Responder

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